E, na verdade, ele estava coberto de razão.
Fui eu que escolhi ser tão afobada, tão apressada, tão intensa e desesperada. Fui eu que quis tanto, quando nem sabia se queria. Eu sabia dos riscos de magoar, de se magoar. Sabia da minha insegurança, sabia dos meus medos, dos meus traumas, das minhas travas. Do meu muro de pedra. Sabia dos meus espinhos, cada um deles. Sabia das minhas rachaduras, das minhas falhas, das minhas feridas abertas. Sabia o quanto cada uma doía (e ainda dói).
Eu sabia exatamente o que cada onda me trouxe de sequela. Sabia que tinha sido petrificada. Salinizada. coração de charque, sem vida.
Mas era só sal...
Era só ter tido paciência de esperar em banho corrente, em cachoeira, ou até mesmo na chuva. Era só ter deixado a água levar de volta o que deixou em mim: sal. E aí eu voltava a ser quem eu gostava tanto... Talvez não tão doce - há de se considerar que tanto sal adormece -, mas menos prejudicial. Menos iódica. Menos armada, menos protegida, menos enclausurada, menos impregnada... de sal.
Ele é de câncer, e o meu sal absorve tudo de mais belo que existe nele, que ele tem pra me oferecer.
E depois divide, egoistamente, entre cada grãozinho.
Em cada grão de sal existe um pouco de amor.
E como boa armadura que todos juntos são, não deixam que nada me atinja.
Queridos grãos de sal, por favor, parem de reter o meu amor!
(Meu querido amor, por favor, me deixe de molho em água da chuva!)