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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

querida mãe,

Eu sempre fico em dúvida sobre o que me deixa doente: se é essa casa. Se sou eu mesma. Se é você. Desses três pontos, eu tenho algumas certezas: eu cresci tanto nesses últimos meses, desde que voltei de São Paulo, que posso afirmar em sã consciência: eu tô bem comigo mesma. Eu entendi o que eu gosto, o que eu não gosto. O que eu quero, o que eu não quero. Sinto falta de ter esse conhecimento sobre eu (ou mim?) mesma, mas estou trabalhando nisso com a psicóloga. Pois é. A quarta, desde aquela que nos consultou na época que meu pai ficou internado. Já passei pela quarta profissional em psicologia e adivinha: nenhuma delas me diagnosticou com nenhum tipo de transtorno mental.

Difícil acreditar, né?

Porque eu tenho tantas variações de humor (que você não é obrigada a lidar), sou tão grosseira (principalmente com a Julia, a grande vítima de tudo isso, com quem, segundo você mesma, eu mal converso e nem sei ser irmã). Eu também não sei dividir o que é meu, não aceito opiniões de outras pessoas, não aceito sugestões e não aceito ajuda. Eu sou como a tia Lala. De lua. Essa sou eu, segundo você. E segundo você, eu falo de comer comida saudável, mas de madrugada e ao longo do dia tô atacando a geladeira (sabe qual foi a última vez que eu fiz isso? Nem eu me lembro), logo, não tenho espaço pra pedir (veja bem: pedir. Não exigir, não ordenar, mas pedir) pra você comprar brócolis pra mim. Nem pra pedir dinheiro pra eu mesma fazer a feira saudável da casa. Por que só eu que vou comer.

Que engraçado: lembra quando você só deixava eu ir pro vôlei depois de engolir aquela salada terrível de alface e tomate (que ainda hoje não gosto)? Agora eu quero ter uma alimentação saudável, e você não faz o menor esforço pra que isso aconteça.

Mas falando em dinheiro: você nunca me negou dinheiro? Eu que te pedi metade do valor total da minha consulta de emergência e do antibiótico? Ou será que nesse dia, eu cheguei em casa quase chorando, dizendo que tava morrendo de dor e tive que correr pro hospital sozinha (o que é horrível), e depois corri pra farmácia pra comprar o remédio, e a primeira coisa que você fez foi passar meia hora falando do quanto a minha atitude tinha sido errada, imprudente, impulsiva? Sério que é imprudente estar chorando de dor e não procurar um hospital? Você acha mesmo que o correto é ir pra casa e marcar uma consulta? Bom, eu sei o tamanho da dor que eu estava sentindo, e aquilo não poderia esperar nem 24 horas. Bom, nesse mesmo dia, eu pedi, morrendo de vergonha, o dinheiro de tudo, porque ficou meio pesado pra alguém que recebe R$300 por mês, de bolsa da Universidade. E você disse o que? Não tenho dinheiro não, Juliana. Que engraçado. Não tem dinheiro. E depois de um dia ou dois, me chega no quarto com a metade do valor, dizendo: "tá aí, pra te ajudar". 

Em que momento bancar minha saúde passou a ser uma coisa tão absurda e incompetente à vocês?

Mudemos de assunto: carro. Quando se divide um carro, eu penso que as pessoas que estão dividindo devem dividir não só o carro, mas também os seus horários e atividades para que todos possam usufruir dele da melhor forma possível. Não foi isso que aconteceu no episódio da Yoga. A minha irmã não poderia acordar dez minutos mais cedo (ou 30, como você gosta de enfatizar) para que nós duas tivéssemos acesso ao carro. Na sua cabeça, o certo seria eu acordar 5h da manhã, sair com meu pai às 6h30 pra ir à pé pra casa da minha amiga (chegando lá 6h40) pra aula de Yoga que começava às 8h. Eu precisaria acordar 1h30 mais cedo, porque segundo você, é um absurdo a minha irmã acordar 10 minutos mais cedo. Eu é que teria que me adaptar aos "horários já existentes". Esse é o seu conceito de "dividir"? E eu me pergunto: será mesmo que sou eu quem não sabe dividir nada?

Eu parei de ir às aulas de yoga. Mas ainda teve um episódio: você, um dia, disse muito generosamente que poderia ir me buscar na aula. Eu sempre voltava de carona ou pegava um ônibus, mesmo, mas nesse dia eu te liguei, e você disse que não poderia ir porque estava esperando a diarista chegar. Ou seja: diarista > tua filha.

E tem também o episódio do diário, que você minimiza a importância dele com os seguintes argumentos: 1) eu deveria ter feito alguma coisa muito ruim, 2) eu só poderia ter escrito alguma coisa também muito ruim e 3) claro que eu menti quando disse que tinha dificuldade de escrever alguma coisa nessa casa! Afinal de contas, olha a quantidade de agendas de colégio eu tenho guardadas. Eu escrevia tudo nelas!

Sim, mãe, eu escrevia tudo sobre o colégio. Pregava coisas que eu ganhava ou achava no chão. Mas escrever sobre os meus sentimentos? Deus, como demorou até eu conseguir fazer isso. E foi por isso mesmo que eu fiz este blog, que não é indexado a nenhuma pesquisa do Google, não tem sistema de comentários e tem acesso privado a pessoas com o link. Adivinha por quê. Ainda sobre minhas agendas, no dia em que eu "fiz a limpa" e me desfiz de várias coisas, não tive como não reler alguns diários. E dentro de vários deles, vários diálogos terríveis entre você e eu. Em um deles, você me dizia que "ficar abraçada com meu sapo de pelúcia iria me fazer tirar notas boas", com uma ironia tão desnecessária! Que escrota.

O seu sonho de família perfeita nunca vai ser realizado. Primeiro de tudo, porque nada é perfeito. Segundo, porque o ideal de família não deveria estar pautado no conceito de "concordamos em tudo", mas no de "temos nossas divergências, mas sabemos aceitar o outro". Assim como eu aceito meu pai e seus comentários vez ou outra homofóbicos. Como eu aceito a Julia sendo uma criança arrogante e mimada. E como eu aceitava você, mesmo você não tendo um pingo de humildade, não sabendo reconhecer ou pedir desculpas pelos seus erros. Você está tão cheia de si mesma, que não consegue nem enxergá-los.

Você fala que eu te magoo quando sou grossa com a Julia, quando tenho variações de comportamento (eu nunca entendi o que você quis dizer com isso). Você me magoa quando você lê meu diário na minha frente. Quando você escuta a conversa que tô tendo com meu pai e fala na minha cara que escutou (e depois, naquela conversa entre os 4, disse que não, que não tinha feito nada disso). Quando você escuta minhas conversas pelo telefone. Mas principalmente, quando você não se retrata por nada disso. Ao invés, fica nessa posição ridícula de ataque e defesa. Quando estávamos todos dispostos a nos acertar, você só queria saber de se proteger e de proteger a Julia, tadinha. Só que não tinha ninguém atacando.

Mãe, todos os dias eu me esforço pra pensar que você não me odeia, que eu não sou o pior ser humano do mundo, que você não faz de tudo pra me deixar sentindo péssima. Mas você não ajuda. Hoje deve ter sido a terceira vez que você saiu de casa no almoço, e não voltou, e não avisou nada, e não fez almoço. Eu sei fazer almoço. O que eu não sei é entender como você pode exigir coisas de mim que nem mesmo você faz. Eu não sei lidar com você, essa pessoa que trata todo mundo muito bem, até que alguém discorde de qualquer opinião sua.

Se a gente tá na mesa e eu digo "oba, carne!", você é a primeira a dizer: "não, bife". Você sempre quer estar certa, sobre todas as pequenas coisas da vida. Inclusive sobre mim. Deve ser por isso que você não consegue me aceitar e não consegue conviver comigo, porque eu não concordo com pelo menos 80% das coisas que você pensa, faz e diz. Eu não sou nada do que você diz que eu sou.

Na minha penúltima sessão, eu chorei quando a terapeuta me disse que eu era meiga. E tudo que você sabe dizer é que a Julia que é meiga, a Julia que se importa com a família, a Julia que faz questão da união na casa, a Julia que precisa de você. Mas isso porque ela faz tudo do jeito que você quer que ela faça. Um dia talvez ela cresça e passe a se questionar, também, assim como eu me questiono todos os dias.

Há três anos, quando eu cogitei a possibilidade de fazer um intercâmbio e passar um ano morando em Portugal, você disse que iria fazer um teste comigo. Pra ver se eu iria conseguir mesmo me virar sozinha. Isso é o que tu chama de apoio ou incentivo? Eu não tinha medo de queimar o arroz, não tinha medo de ter que cuidar de uma casa, de limpar um vaso sanitário, de administrar o dinheiro e de estudar - eu tinha medo de ficar sozinha. E hoje, o que me aterroriza é ouvir as vozes de vocês nos cômodos vizinhos ao meu quarto. Hoje eu prefiro ficar o dia inteiro sozinha do que dividir qualquer tipo de espaço com você. No final do dia, eu estou exausta, mas estou feliz, porque quando você não está aqui, eu estou em paz.

Mas mãe, eu preciso te agradecer por tudo isso.

Eu, que segundo você, não sou grata a nada, estou demonstrando minha profunda gratidão ao tratamento escrotíssimo que você me deu em vários momentos desses meus 24 anos. Porque se eu não tivesse me tornado eu, quem eu seria? Eu adoro a pessoa que eu sou, mesmo com meus defeitos e meus pontos a serem trabalhados. Mãe, eu não sou mentirosa. Eu nunca soube mentir. Eu não sou grossa. Eu não sou bipolar. Eu sou independente, eu quero ter minha vida, quero ser feliz, quero bater minhas asas. Mais que tudo isso, que quero poder existir sem que a minha existência não atrapalhe a existência de ninguém, sem que a minha existência não seja motivo de brigas dentro de casa.

Eu sempre fui uma pessoa difícil de lidar? Talvez, quando eu era adolescente. Mas agora, não, mãe. Agora eu me esforço pra ser um ser humano melhor, todos os dias. Eu avalio e reavalio minhas posturas, minhas palavras. meus gestos. Eu consigo pensar nos outros, sim. E eu penso tanto nos outros, que eu não consigo me colocar em primeiro lugar pra nenhuma decisão na minha vida.

Opa, peraí. Eu consigo, sim: eu quero sair de casa pra eu ficar em paz.

Agora eu tô mentindo: eu quero sair de casa, porque eu não quero ser o motivo do climão de lugar nenhum. Tá vendo? Nem as coisas que eu faço que são pro meu benefício maior, eu consigo atrelar à minha necessidade única.

Mas eu te agradeço mesmo assim. Tudo isso fez de mim a pessoa forte, guerreira, independente, bem resolvida em 80% dos pontos, madura, e em constante processo de evolução.

Você diz que eu tenho ciúme da Julia, mas deus me livre de ser a Julia, essa criança de 16 anos que é incapaz de andar à pé cinco minutos pra comprar cordas pro violão. Que acha mais fácil pedir pra mim, em SP, colocar créditos pra ela, do que ir até a banca de jornal (que fica a 3 quarteirões de casa) e comprar sozinha. Deus me livre ser a Julia, que não sabe pegar um ônibus. Que fica putinha quando anda de táxi. Que chora quando alguém ignora o que ela tem a dizer numa mesa de conversa. Que sonha em ir pra Disney, mas é incapaz de fazer uma ligação pra pedir informações numa agência de viagens. Deus me livre de ser a Julia, que recebe uma mesada tão alta por fazer vários nada. Eu sinto pena da Julia. Porque você não vai durar pra sempre, e no dia que você se for, ela vai ficar completamente desnorteada. E porque ela se torna uma pessoa mais boba a cada dia. Completamente despreparada pra enfrentar essa vida aí fora, que tantas vezes é tão difícil.

Eu não quero ter nada do que a Julia tem. No máximo, talvez metade das roupas que ela sempre ganha por motivo nenhum. O que eu quero é poder existir, ser eu, ficar em paz e, um dia, conseguir parar de absorver a culpa de toda a bosta que acontece nessa casa. Porque não é possível que uma pessoa tão quieta como eu possa ser capaz de causar tanto transtorno na vida de vocês.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

inverno

as suas lembranças são a última folha seca que eu não quero deixar cair.

quarta-feira, 30 de março de 2011

carta aberta.

à quem se importar, que fique registrado:

eu cansei.
eu estou oficialmente cansada de tudo isso!

estou definitivamente cansada de doar alma e coração e só me arremessarem pedras. de me preocupar com a harmonia das coisas e das pessoas, e não obter nada em retorno (nem mesmo respeito - só o caos). de ser atingida com a mais ridícula das infantilidades, de ser vítima de fofoca, de ser cruelmente julgada por alguém que não sabe nada - absolutamente NADA - da minha vida. de ter uma imagem deturpada por alguém que não tem nem mesmo identidade, não tem coerência, não tem paz de espírito; alguém que quer curar um coração partido passando por cima dos outros, se aproveitando das oportunidades mais insignificantes; alguém que se diverte catalogando dados sobre os passos dos outros, quando só anda em corda bamba, quando vive tropeçando nos próprios pés e arrastando pessoas para os abismos que cai. quem não sabe guardar um segredo, quem não sabe o valor da palavra "amizade", quem não sabe ser humilde, quem não se cabe em mesquinhez, quem expõe a vida ao ridículo, quem não consegue viver em paz. quem não faz a menor idéia do que está acontecendo, e se vê no direito de distorcer os acontecimentos...

e mais cansada ainda eu estou de quem me põe como vilã na minha própria história.
porque, geralmente, isso tem vindo de quem eu menos espero.

de onde eu venho, as pessoas têm direito de fazer o que quiserem com suas vidas.
no meu tempo, a gente dava satisfação à quem nos era superior.

e de acordo com meu pífeo conhecimento, "discrição" é sinônimo de não querer ser o centro das atenções; "amizade" quer dizer companheirismo, reciprocidade, confiança e querer ver o outro feliz, e não uma relação unilateral exploratória, interesseira e ofensiva; "mudar" é deixar de ser o que se foi por toda a vida até o momento, e não cortar o cabelo ou postar uma frase de um autor conhecido nas redes sociais, esperando que todos aprovem; "religião" quer dizer acreditar no sobrenatural afim de encontrar respostas para as questões da vida, para se tornar uma pessoa melhor. o seu deus, seja lá quem for, não acessa o orkut, nem o facebook, nem o twitter. recebe o mérito quem faz por onde, nas pequenas atitudes do dia-a-dia; não é preciso ir a cultos religiosos periodicamente para estar em paz com seu espírito; mas ainda assim, há quem vá, e não consiga encontrar a sua própria luz: se vê com a dos outros, vai com eles. e "caráter" é o que me dá respaldo a escrever tudo isso.

eu, sinceramente, não sei o que está acontecendo com os valores da sociedade atual.
não sei qual tratado gramático-ortográfico determinou que palavras tão cheias de significância se banalizassem assim. catacrese?

não consigo me adaptar às leis do pós-moderno.
no meu tempo, eu passava o final de semana lendo livros, desenhando, estudando, saindo para ver o céu,  escrevendo, estreitando meus laços afetivos, fortalecendo minhas novas e antigas amizades, e engrandecendo minha personalidade.

eu estou cansada de magoar as pessoas por algo que eu não fiz.
de ter que me desculpar pelas atitudes errôneas dos outros.
de ter a pertinente sensação de que eu não sou daqui, mas que vou ter de ficar.

e a pior de todas: de saber que só existe uma pessoa que se importa com isso tudo... e que essa pessoa sou eu.

domingo, 30 de janeiro de 2011

carta ao amor da vida.

foi você quem eu escolhi pra ser o alvo dos meus devaneios, o dono das minhas saudades, um motivo melhor pro meu coração bater mais rápido, pra eu me sentir viva; uma razão pra tanta espera, o prêmio da demora, a angústia da partida, o doce sabor do reencontro; um coração cheio - eu vou te encher de bem querer, você não vai (me) deixar.

a culpa é minha.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

cartas jogadas ao mar - II

mas eu sei que você existe
e é por existir que eu te escrevo
porque um dia você há de chegar
e me dizer que é o fim do pesadelo
e o início do conto-de-fadas.