Um dos maiores medos que eu tenho na vida (senão o maior de todos) é o de ficar sozinha. Isso vem de muito tempo: quando criança, demorei pra conseguir dormir longe da minha mãe, e só conseguia se fosse com uma luz acesa e abraçada com algum bichinho de pelúcia.
No meu último ano, passei por dois processos muito simbólicos de separação: saí da casa dos meus pais pra morar sozinha e, poucos meses depois, terminei um relacionamento de mais de cinco anos.
Desde então, são muitas, incontáveis noites dormindo sozinha. Lidando com os pesadelos e os problemas da vida real (cara, é incrível como eles podem se multiplicar!) sozinha. Dias acordando sozinha, domingos passados sozinha, trabalhando sozinha, vendo séries sozinha, fazendo as compras de casa sozinha. Tocando violão sozinha. Lendo sozinha. Ouvindo música sozinha. Chegando em casa depois de um dia difícil e perceber que – adivinha – to sozinha.
As pessoas falam que a gente precisa ser feliz sozinho, primeiro, pra depois poder ficar feliz com o outro. Que a gente precisa aprender a apreciar nossa própria companhia. Talvez eles estejam certos. Eu sigo tentando aprender, por mais duro que isso sempre, sempre, sempre seja.
Esses processos de ruptura sempre vêm pra ensinar alguma coisa pra gente.
Eu nunca fui muito de comemorar o dia do meu aniversário; o ritual vem sendo o mesmo desde quase sempre: ser acordada com presentes pelos meus pais e irmã, ir pro colégio/trabalho, passar a tarde atendendo ligações da família e comer bolo de noite. No domingo mais próximo, ir pra casa da vó e cantar os parabéns com todos os aniversariantes do mês. Fim.
Um dia desses, o facebook me lembrou que, há cinco anos, eu estava comemorando essa mesma data dentro de um centro de fisioterapia. Foi pouco tempo depois da minha artroscopia (e de ter passado um mês sem andar), e eu tava andando de muletas e morrendo de chorar, porque não queria fazer vinte anos. Eu era oficialmente uma adulta, mas uma adulta de muletas.
O facebook me lembrou disso exatamente no dia seguinte que eu consegui andar de bicicleta pela primeira vez.
Eu conquistei algumas coisas que me fazem pensar se fui mesmo eu que consegui, incluindo uma variedade de coisas pequenas: usar uma furadeira, cancelar um plano de telefonia, fazer o computador ligar, mudar os móveis de canto, fazer um almoço que não tenha ficado um desastre, cumprir com todas as atividades do dia. Em que momento isso passou a significar tanto?
Poderia listar um milhão de coisas maravilhosas que vêm acontecendo de uns tempos pra cá: viagem com amigas, mesas de bar recheadas com pessoas maravilhosas, festinhas no final de semana, pôr do sol na praia, banho de mar, violão na beira do mar. Noites de séries e pizza no sofá, adormecer no meio de um filme bom, músicas cantadas a plenos pulmões no carro, madrugadas regadas a bons amigos e cerveja, almoço na casa ao lado, noites de jogos lúdicos, jantares aleatórios no meio da semana, saídas alternativas marcadas de última hora, festinhas surpresa, projetos com amigos. Sonhos antigos sendo realizados aos pouquinhos. Pequenas superações de desafios. Pessoas maravilhosas chegando e fazendo ninho. Novos caminhos se abrindo. Andar sem muletas.
Eu tenho um monte de manchas e cicatrizes pelo corpo e, se você me perguntar, eu vou saber te dizer a história de cada uma delas, porque elas meio que são o que eu sou.
Meu pai fala que eu tenho que ser como uma rocha, minha terapeuta fala que eu me pareço muito com o mar, uma pessoa que foi muito especial uma vez me disse que eu era uma estrela.
Hoje, o dia que eu completo vinte e cinco voltas em torno do Sol, pela primeira vez faço questão de que seja um bom dia. De alguma maneira, é como se eu quisesse – é como se fizesse sentido celebrar a pessoa que eu me tornei.
Identidade é algo que se constrói.
Eu ainda não sei muito bem quem eu sou, mas de uma coisa eu sei bem: definitivamente, não to sozinha. Desses vinte e cinco anos, essa é a melhor versão de mim.