se ficar assim te dói,
fica assim não, menina!
vai e procura um outro caminho diferente daquele que você costumava seguir. quem sabe, ele te leve mais perto do céu, mais perto das nuvens, mais perto de um arco-íris com as cores que você nunca sentiu. quem sabe você chegue mais longe do que já imaginou. você tem pressa de chegar?
- mas se eu nem sei onde... ir...
pois vá sem medo, sem pressa. só não fique aí, parada, imóvel, estaticamente inerte, esperando que chova alegria no jardim do seu coração. deite no chão para ver as estrelas, e se esforce para que elas não lhe pareçam lágrimas... as tuas lágrimas, que formaram um mar onde só tu te afogaste. notaste? construíste sozinha o aquário onde afundas lentamente, a cada nova tentativa de... de que, menina? que queres tu do que sobra desta velha vida? que esperas tu neste barco perdido no meio do nada? que esperas tu, tão bem sentada, na cadeira mais baixa da roda gigante? que queres tu que sopre como brisa da manhã em teus ouvidos, que te faça abrir os olhos por um motivo que não o de chorar? que queres tu, com este coração na mão, que tanto dizes, "aberto", se nem tu própria conseguiste curar as feridas antigas, menina? de onde queres que surja a tamanha felicidade a qual tanto procuras? será que tu procuras, menina? ou vives a adiar e a atrasar teu sorriso bonito, menina? e, aliás, porque não sorris?
- porque não me dás, tu, um belo motivo?
e achas pouco poder acordar todo dia ao som dos pássaros, sentindo os primeiros raios de sol atravessando o vidro da tua janela, poder pisar de pés descalços no chão frio do teu quarto, e te sentir viva?
- como se tu não soubesses do muro que ocupa a visão da minha janela...
e foi este muro que te fizeste acreditar que o céu não existe mais? tantos anos de vida, menina, e ainda não aprendeste a ver o céu verdadeiro? ou pior: estás sempre à mercê de uma janela aberta, sem grades, sem prédios, livre para que possas tu livremente observar o céu? que custa de ti, menina, abrir um , dois ou três cadeados, e correr para sentir o céu? tu precisas tê-lo fácil, assim, para acreditar que ele está sempre ali, para ti? precisas que a felicidade se deleite em teus braços para saber que ela existe? precisas tu que as flores nasçam e desabrochem sozinhas, para sentir-lhes o verdadeiro perfume?
- talvez porque tenha precisado sentir o gosto das lágrimas para perceber o quanto são cruéis; porque tenha precisado retornar à solidão, para saber o quanto dói; porque tenha eu precisado estilhaçar meu coração, para saber o quão árduo é o trabalho da reconstrução... ainda mais quando o vento resolve por levar alguns pedaços dele consigo. sempre fica um vazio, um buraco negro na galáxia que eu mesma sou, e tenho medo de entrar e não sair, tenho medo de olhar e não conseguir mais parar, até que ele seja o (novo) dono dos meus olhos, e eu tenha de viver de um infinito doloroso, gradualmente doloroso, e tão doloroso, que nem mesmo o sono eterno possa ser capaz de curar tudo isso.
o que tu não sabes, menina, é que nem sempre persistir no erro é burrice. se tu soubesses que seria erro, certamente não teria o feito; e talvez, de fato, nem tenha o sido; são só teus olhos coagulados de lágrimas que só enxergam o que tu própria queres. estás tão certa de que estás imersa no teu aquário, que não consegues ver através da superfície; estás tão certa de que estás perdida, que não consegue encontrar saída. estás tão certas de que está triste, que não consegues sorrir.
- eu não estou certa de que estou triste!
pois sorris, menina. não te dói ficar assim?
- dói...
fica assim não, menina, que a dúvida é uma das poucas certezas da vida. e tu, que tanto admiras os paradoxos, deverias aprender a conviver com este, já que não aprendeste (e parece que nunca vais aprender) a lidar com a tamanha injustiça que te rodeava. vês? já não precisas mais amargurar teu coração a tanto! vês que és capaz de tornar a enxergar as pequenas coisas da vida, mesmo que isso te custe tanto?
- vejo...
diga a mim, agora: custa tanto para ti levantar-te dessa cama e ir contar as estrelas do céu, ou ver desenhos nas nuvens, ou passar horas admirando a lua, ou sentir o vento da noite? custa para ti perceber que, de certa forma, tudo ao teu redor te conta algum segredo, e é só tu, com teus ouvidos ainda carregados de promessas não cumpridas, que não te permites ouvir? que é só tu, menina, com o corpo ainda cravejado de passado, com a alma vestida de ausência, com o coração - embora partido - recheado do que já foi embora, que não consegue render-te ao destino que te é merecido... que só, e somente tu, menina, és a dona da essência... e a dona do sorriso... e a dona do perfume, da flor... só tu.