Hoje, às 6h da manhã, não atendo um telefonema cujo número tem um final desconhecido; no grupo da família, meu pai manda os parabéns e um áudio que eu não quero ouvir e nem vou, e essa é a única alternativa respeitosa que ele tinha pra me contatar hoje, porque ele tá bloqueado de todas as minhas redes sociais, tá bloqueado de chamada, de whatsapp, de tudo. São dois meses desde que ele saiu de casa, ridiculamente, deixando minha mãe sem cartão, sem dinheiro e sem saber o que fazer com uma casa tão grande e uma história tão longa se esvaziando na frente dela.
Minha mãe não trabalha e só agora, com 50 anos de idade, conseguiu finalizar o ensino médio, porque passou a vida inteira se dedicando a cuidar da família. Foram quase 30 anos dessa jornada dedicados a um homem que, depois de ir estragando cada página dessa história, ano por ano, desafiando as nossas capacidades de compreensão, empatia e perdão, há pelo menos vinte - que eu presenciei -, resolveu escrever sozinho o final dela.
Vivos na minha memória estão os episódios de alcoolismo, que eram seguidos dos de choro, sentado no sofá da sala, tomando uísque e ouvindo Roberto Carlos, e às vezes umas idas ao meu quarto, de noite, pra dizer que me ama, que papai tá sempre aqui, com a boca podre a álcool. Os episódios da sua ausência, das tantas festinhas de dia dos pais que eu dancei e cantei pra pais que não eram os meus, e no final não tinha ninguém pra eu abraçar. Quando você chegava muito tarde em casa e dizia que tava trabalhando no Poder Judiciário, mas como você podia trabalhar numa instituição desse tamanho se você mal sabia escrever direito? Aí depois a mãe descobriu que você tava traindo ela, e eu, com uns 8 anos de idade, via minha mãe chorar compulsivamente pela primeira vez; vi gente de tudo quanto é lado querendo se meter na situação, vi minha mãe atendendo e ignorando ligação, vi minhas tias saírem da bolha-Aldeota pra nos visitar, tive de ficar brincando com meus primos enquanto minha mãe falava de coisas de adulto na sala da casa da vó.
Aí depois, muito depois, você começou o tratamento para o alcoolismo, mas não sem antes me fazer passar vergonha na frente de um namoradinho, no meio de uma das suas crises. Você foi diagnosticado também com depressão e transtorno bipolar, e minha mãe se desdobrou pra fazer a gente te entender e te ajudar, pai, mas o que você fez pra se ajudar, durante todos esses anos? Você resolveu sair de casa, perdi as contas de quantas vezes. Você foi preso em flagrante por agressão, bêbado. Você me fez sentir medo da sua autoridade, depois medo da sua insanidade mental, vergonha de comemorar seu aniversário numa clínica de reabilitação, medo de beber, impaciente com suas demonstrações de afeto, medo da sua presença, medo da sua arma, vergonha da sua prisão, vergonha de saber que você tem uma ficha criminal, medo de ficar igual a você.
E agora eu sinto raiva de você.
Porque eu vi minha mãe chorar compulsivamente, de novo, segurando com a única força que ela tinha um pingente que era de seu pai, falecido. Eu vi minha mãe perder 10kg porque ela não tava se alimentando; eu vi ela não querer levantar da cama, não aceitar nossa companhia, não conseguir dormir. Porque eu e minha irmã tivemos que tirar força de dentro de um lugar que a gente nem sabe onde fica, pra tentar nos fortalecer e seguir com a nossa vida, mas claro que isso tem um custo muito alto, e hoje estão as três tomando calmante e com consulta marcada pro psiquiatra. Mas a minha raiva tem um outro motivo, maior ou tão grande quanto esse. Você pegou as três pessoas que mais se importavam (sim, no passado) com você e colocou uma contra a outra. Você aproveitou quando eu saí de casa pra falar de como minha mãe era uma pessoa difícil, e de como nós éramos muito parecidos; e depois você falava pra minha mãe e pra minha irmã como eu era ingrata, revoltada, que eu só podia ser doente mental mesmo. E aí a gente precisou esperar quase três anos pra ter uma conversa e descobrir que, olha só, você armou toda essa bosta pra gente. Você tem dimensão da gravidade disso? Não, né? Você nunca teve noção do tanto que as suas ações machucam a gente, porque você é um sociopata.
Ontem eu percebi o tanto de tempo que faz que eu não saio de casa, que eu não consigo ser uma boa amiga, uma boa companheira, uma boa colega de trabalho, porque eu não tenho energia pra me dedicar a nada disso, porque eu tô usando tudo pra tentar me reconstruir depois do caldo que você deu na gente.
Hoje eu acordei cansada, como tem sido nos últimos dois meses. Cansada de tudo, especialmente de ter que me virar pra dar conta das porradas que as suas atitudes vão deixando na gente, de ter que dar um jeito de arrumar as porcarias que você faz e não dá conta. Metade do dinheiro que tinha na minha poupança tá na mão da minha mãe, e ela tá se segurando em mim, que não tenho segurança financeira nenhuma, porque você é tão estúpido que não consegue cuidar do menor dos seus problemas.
Hoje eu acordei com sentimentos mistos, porque nem era um dia de muita celebração, mas também não era um dia qualquer. É meu aniversário e eu me distanciei de vários amigos, por motivos diversos, todos girando em torno do não consigo porque não tenho energia pra nenhum conflito além desse, e pela minha dificuldade de sempre que é não conseguir deixar as pessoas entrarem. É meu aniversário e eu não tenho vontade de celebrar, não tenho vontade de me dar nenhum presente, nem de convidar ninguém pra comemorar isso comigo. Não tenho vontade de ir pra praia, de beber. São duas e meia da tarde e eu tô pensando em qual vai ser meu itinerário de obrigações do dia. Eu vou dar aula como se nada tivesse acontecido, aí eu vou chegar em casa e dormir, e meu dia vai ter passado quase despercebido, pros outros e pra mim.
Eu tenho vinte e sete anos e me sinto exausta por toda uma vida lidando com os problemas que você causou.