terça-feira, 20 de setembro de 2016

Vinte e cinco.

Um dos maiores medos que eu tenho na vida (senão o maior de todos) é o de ficar sozinha. Isso vem de muito tempo: quando criança, demorei pra conseguir dormir longe da minha mãe, e só conseguia se fosse com uma luz acesa e abraçada com algum bichinho de pelúcia.

No meu último ano, passei por dois processos muito simbólicos de separação: saí da casa dos meus pais pra morar sozinha e, poucos meses depois, terminei um relacionamento de mais de cinco anos.

Desde então, são muitas, incontáveis noites dormindo sozinha. Lidando com os pesadelos e os problemas da vida real (cara, é incrível como eles podem se multiplicar!) sozinha. Dias acordando sozinha, domingos passados sozinha, trabalhando sozinha, vendo séries sozinha, fazendo as compras de casa sozinha. Tocando violão sozinha. Lendo sozinha. Ouvindo música sozinha. Chegando em casa depois de um dia difícil e perceber que – adivinha – to sozinha.

As pessoas falam que a gente precisa ser feliz sozinho, primeiro, pra depois poder ficar feliz com o outro. Que a gente precisa aprender a apreciar nossa própria companhia. Talvez eles estejam certos. Eu sigo tentando aprender, por mais duro que isso sempre, sempre, sempre seja.

Esses processos de ruptura sempre vêm pra ensinar alguma coisa pra gente.

Eu nunca fui muito de comemorar o dia do meu aniversário; o ritual vem sendo o mesmo desde quase sempre: ser acordada com presentes pelos meus pais e irmã, ir pro colégio/trabalho, passar a tarde atendendo ligações da família e comer bolo de noite. No domingo mais próximo, ir pra casa da vó e cantar os parabéns com todos os aniversariantes do mês. Fim.

Um dia desses, o facebook me lembrou que, há cinco anos, eu estava comemorando essa mesma data dentro de um centro de fisioterapia. Foi pouco tempo depois da minha artroscopia (e de ter passado um mês sem andar), e eu tava andando de muletas e morrendo de chorar, porque não queria fazer vinte anos. Eu era oficialmente uma adulta, mas uma adulta de muletas.

O facebook me lembrou disso exatamente no dia seguinte que eu consegui andar de bicicleta pela primeira vez.

Eu conquistei algumas coisas que me fazem pensar se fui mesmo eu que consegui, incluindo uma variedade de coisas pequenas: usar uma furadeira, cancelar um plano de telefonia, fazer o computador ligar, mudar os móveis de canto, fazer um almoço que não tenha ficado um desastre, cumprir com todas as atividades do dia. Em que momento isso passou a significar tanto?

Poderia listar um milhão de coisas maravilhosas que vêm acontecendo de uns tempos pra cá: viagem com amigas, mesas de bar recheadas com pessoas maravilhosas, festinhas no final de semana, pôr do sol na praia, banho de mar, violão na beira do mar. Noites de séries e pizza no sofá, adormecer no meio de um filme bom, músicas cantadas a plenos pulmões no carro, madrugadas regadas a bons amigos e cerveja, almoço na casa ao lado, noites de jogos lúdicos, jantares aleatórios no meio da semana, saídas alternativas marcadas de última hora, festinhas surpresa, projetos com amigos. Sonhos antigos sendo realizados aos pouquinhos. Pequenas superações de desafios. Pessoas maravilhosas chegando e fazendo ninho. Novos caminhos se abrindo. Andar sem muletas.

Eu tenho um monte de manchas e cicatrizes pelo corpo e, se você me perguntar, eu vou saber te dizer a história de cada uma delas, porque elas meio que são o que eu sou.

Meu pai fala que eu tenho que ser como uma rocha, minha terapeuta fala que eu me pareço muito com o mar, uma pessoa que foi muito especial uma vez me disse que eu era uma estrela.

Hoje, o dia que eu completo vinte e cinco voltas em torno do Sol, pela primeira vez faço questão de que seja um bom dia. De alguma maneira, é como se eu quisesse – é como se fizesse sentido celebrar a pessoa que eu me tornei.

Identidade é algo que se constrói.

Eu ainda não sei muito bem quem eu sou, mas de uma coisa eu sei bem: definitivamente, não to sozinha. Desses vinte e cinco anos, essa é a melhor versão de mim.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

querida mãe,

Eu sempre fico em dúvida sobre o que me deixa doente: se é essa casa. Se sou eu mesma. Se é você. Desses três pontos, eu tenho algumas certezas: eu cresci tanto nesses últimos meses, desde que voltei de São Paulo, que posso afirmar em sã consciência: eu tô bem comigo mesma. Eu entendi o que eu gosto, o que eu não gosto. O que eu quero, o que eu não quero. Sinto falta de ter esse conhecimento sobre eu (ou mim?) mesma, mas estou trabalhando nisso com a psicóloga. Pois é. A quarta, desde aquela que nos consultou na época que meu pai ficou internado. Já passei pela quarta profissional em psicologia e adivinha: nenhuma delas me diagnosticou com nenhum tipo de transtorno mental.

Difícil acreditar, né?

Porque eu tenho tantas variações de humor (que você não é obrigada a lidar), sou tão grosseira (principalmente com a Julia, a grande vítima de tudo isso, com quem, segundo você mesma, eu mal converso e nem sei ser irmã). Eu também não sei dividir o que é meu, não aceito opiniões de outras pessoas, não aceito sugestões e não aceito ajuda. Eu sou como a tia Lala. De lua. Essa sou eu, segundo você. E segundo você, eu falo de comer comida saudável, mas de madrugada e ao longo do dia tô atacando a geladeira (sabe qual foi a última vez que eu fiz isso? Nem eu me lembro), logo, não tenho espaço pra pedir (veja bem: pedir. Não exigir, não ordenar, mas pedir) pra você comprar brócolis pra mim. Nem pra pedir dinheiro pra eu mesma fazer a feira saudável da casa. Por que só eu que vou comer.

Que engraçado: lembra quando você só deixava eu ir pro vôlei depois de engolir aquela salada terrível de alface e tomate (que ainda hoje não gosto)? Agora eu quero ter uma alimentação saudável, e você não faz o menor esforço pra que isso aconteça.

Mas falando em dinheiro: você nunca me negou dinheiro? Eu que te pedi metade do valor total da minha consulta de emergência e do antibiótico? Ou será que nesse dia, eu cheguei em casa quase chorando, dizendo que tava morrendo de dor e tive que correr pro hospital sozinha (o que é horrível), e depois corri pra farmácia pra comprar o remédio, e a primeira coisa que você fez foi passar meia hora falando do quanto a minha atitude tinha sido errada, imprudente, impulsiva? Sério que é imprudente estar chorando de dor e não procurar um hospital? Você acha mesmo que o correto é ir pra casa e marcar uma consulta? Bom, eu sei o tamanho da dor que eu estava sentindo, e aquilo não poderia esperar nem 24 horas. Bom, nesse mesmo dia, eu pedi, morrendo de vergonha, o dinheiro de tudo, porque ficou meio pesado pra alguém que recebe R$300 por mês, de bolsa da Universidade. E você disse o que? Não tenho dinheiro não, Juliana. Que engraçado. Não tem dinheiro. E depois de um dia ou dois, me chega no quarto com a metade do valor, dizendo: "tá aí, pra te ajudar". 

Em que momento bancar minha saúde passou a ser uma coisa tão absurda e incompetente à vocês?

Mudemos de assunto: carro. Quando se divide um carro, eu penso que as pessoas que estão dividindo devem dividir não só o carro, mas também os seus horários e atividades para que todos possam usufruir dele da melhor forma possível. Não foi isso que aconteceu no episódio da Yoga. A minha irmã não poderia acordar dez minutos mais cedo (ou 30, como você gosta de enfatizar) para que nós duas tivéssemos acesso ao carro. Na sua cabeça, o certo seria eu acordar 5h da manhã, sair com meu pai às 6h30 pra ir à pé pra casa da minha amiga (chegando lá 6h40) pra aula de Yoga que começava às 8h. Eu precisaria acordar 1h30 mais cedo, porque segundo você, é um absurdo a minha irmã acordar 10 minutos mais cedo. Eu é que teria que me adaptar aos "horários já existentes". Esse é o seu conceito de "dividir"? E eu me pergunto: será mesmo que sou eu quem não sabe dividir nada?

Eu parei de ir às aulas de yoga. Mas ainda teve um episódio: você, um dia, disse muito generosamente que poderia ir me buscar na aula. Eu sempre voltava de carona ou pegava um ônibus, mesmo, mas nesse dia eu te liguei, e você disse que não poderia ir porque estava esperando a diarista chegar. Ou seja: diarista > tua filha.

E tem também o episódio do diário, que você minimiza a importância dele com os seguintes argumentos: 1) eu deveria ter feito alguma coisa muito ruim, 2) eu só poderia ter escrito alguma coisa também muito ruim e 3) claro que eu menti quando disse que tinha dificuldade de escrever alguma coisa nessa casa! Afinal de contas, olha a quantidade de agendas de colégio eu tenho guardadas. Eu escrevia tudo nelas!

Sim, mãe, eu escrevia tudo sobre o colégio. Pregava coisas que eu ganhava ou achava no chão. Mas escrever sobre os meus sentimentos? Deus, como demorou até eu conseguir fazer isso. E foi por isso mesmo que eu fiz este blog, que não é indexado a nenhuma pesquisa do Google, não tem sistema de comentários e tem acesso privado a pessoas com o link. Adivinha por quê. Ainda sobre minhas agendas, no dia em que eu "fiz a limpa" e me desfiz de várias coisas, não tive como não reler alguns diários. E dentro de vários deles, vários diálogos terríveis entre você e eu. Em um deles, você me dizia que "ficar abraçada com meu sapo de pelúcia iria me fazer tirar notas boas", com uma ironia tão desnecessária! Que escrota.

O seu sonho de família perfeita nunca vai ser realizado. Primeiro de tudo, porque nada é perfeito. Segundo, porque o ideal de família não deveria estar pautado no conceito de "concordamos em tudo", mas no de "temos nossas divergências, mas sabemos aceitar o outro". Assim como eu aceito meu pai e seus comentários vez ou outra homofóbicos. Como eu aceito a Julia sendo uma criança arrogante e mimada. E como eu aceitava você, mesmo você não tendo um pingo de humildade, não sabendo reconhecer ou pedir desculpas pelos seus erros. Você está tão cheia de si mesma, que não consegue nem enxergá-los.

Você fala que eu te magoo quando sou grossa com a Julia, quando tenho variações de comportamento (eu nunca entendi o que você quis dizer com isso). Você me magoa quando você lê meu diário na minha frente. Quando você escuta a conversa que tô tendo com meu pai e fala na minha cara que escutou (e depois, naquela conversa entre os 4, disse que não, que não tinha feito nada disso). Quando você escuta minhas conversas pelo telefone. Mas principalmente, quando você não se retrata por nada disso. Ao invés, fica nessa posição ridícula de ataque e defesa. Quando estávamos todos dispostos a nos acertar, você só queria saber de se proteger e de proteger a Julia, tadinha. Só que não tinha ninguém atacando.

Mãe, todos os dias eu me esforço pra pensar que você não me odeia, que eu não sou o pior ser humano do mundo, que você não faz de tudo pra me deixar sentindo péssima. Mas você não ajuda. Hoje deve ter sido a terceira vez que você saiu de casa no almoço, e não voltou, e não avisou nada, e não fez almoço. Eu sei fazer almoço. O que eu não sei é entender como você pode exigir coisas de mim que nem mesmo você faz. Eu não sei lidar com você, essa pessoa que trata todo mundo muito bem, até que alguém discorde de qualquer opinião sua.

Se a gente tá na mesa e eu digo "oba, carne!", você é a primeira a dizer: "não, bife". Você sempre quer estar certa, sobre todas as pequenas coisas da vida. Inclusive sobre mim. Deve ser por isso que você não consegue me aceitar e não consegue conviver comigo, porque eu não concordo com pelo menos 80% das coisas que você pensa, faz e diz. Eu não sou nada do que você diz que eu sou.

Na minha penúltima sessão, eu chorei quando a terapeuta me disse que eu era meiga. E tudo que você sabe dizer é que a Julia que é meiga, a Julia que se importa com a família, a Julia que faz questão da união na casa, a Julia que precisa de você. Mas isso porque ela faz tudo do jeito que você quer que ela faça. Um dia talvez ela cresça e passe a se questionar, também, assim como eu me questiono todos os dias.

Há três anos, quando eu cogitei a possibilidade de fazer um intercâmbio e passar um ano morando em Portugal, você disse que iria fazer um teste comigo. Pra ver se eu iria conseguir mesmo me virar sozinha. Isso é o que tu chama de apoio ou incentivo? Eu não tinha medo de queimar o arroz, não tinha medo de ter que cuidar de uma casa, de limpar um vaso sanitário, de administrar o dinheiro e de estudar - eu tinha medo de ficar sozinha. E hoje, o que me aterroriza é ouvir as vozes de vocês nos cômodos vizinhos ao meu quarto. Hoje eu prefiro ficar o dia inteiro sozinha do que dividir qualquer tipo de espaço com você. No final do dia, eu estou exausta, mas estou feliz, porque quando você não está aqui, eu estou em paz.

Mas mãe, eu preciso te agradecer por tudo isso.

Eu, que segundo você, não sou grata a nada, estou demonstrando minha profunda gratidão ao tratamento escrotíssimo que você me deu em vários momentos desses meus 24 anos. Porque se eu não tivesse me tornado eu, quem eu seria? Eu adoro a pessoa que eu sou, mesmo com meus defeitos e meus pontos a serem trabalhados. Mãe, eu não sou mentirosa. Eu nunca soube mentir. Eu não sou grossa. Eu não sou bipolar. Eu sou independente, eu quero ter minha vida, quero ser feliz, quero bater minhas asas. Mais que tudo isso, que quero poder existir sem que a minha existência não atrapalhe a existência de ninguém, sem que a minha existência não seja motivo de brigas dentro de casa.

Eu sempre fui uma pessoa difícil de lidar? Talvez, quando eu era adolescente. Mas agora, não, mãe. Agora eu me esforço pra ser um ser humano melhor, todos os dias. Eu avalio e reavalio minhas posturas, minhas palavras. meus gestos. Eu consigo pensar nos outros, sim. E eu penso tanto nos outros, que eu não consigo me colocar em primeiro lugar pra nenhuma decisão na minha vida.

Opa, peraí. Eu consigo, sim: eu quero sair de casa pra eu ficar em paz.

Agora eu tô mentindo: eu quero sair de casa, porque eu não quero ser o motivo do climão de lugar nenhum. Tá vendo? Nem as coisas que eu faço que são pro meu benefício maior, eu consigo atrelar à minha necessidade única.

Mas eu te agradeço mesmo assim. Tudo isso fez de mim a pessoa forte, guerreira, independente, bem resolvida em 80% dos pontos, madura, e em constante processo de evolução.

Você diz que eu tenho ciúme da Julia, mas deus me livre de ser a Julia, essa criança de 16 anos que é incapaz de andar à pé cinco minutos pra comprar cordas pro violão. Que acha mais fácil pedir pra mim, em SP, colocar créditos pra ela, do que ir até a banca de jornal (que fica a 3 quarteirões de casa) e comprar sozinha. Deus me livre ser a Julia, que não sabe pegar um ônibus. Que fica putinha quando anda de táxi. Que chora quando alguém ignora o que ela tem a dizer numa mesa de conversa. Que sonha em ir pra Disney, mas é incapaz de fazer uma ligação pra pedir informações numa agência de viagens. Deus me livre de ser a Julia, que recebe uma mesada tão alta por fazer vários nada. Eu sinto pena da Julia. Porque você não vai durar pra sempre, e no dia que você se for, ela vai ficar completamente desnorteada. E porque ela se torna uma pessoa mais boba a cada dia. Completamente despreparada pra enfrentar essa vida aí fora, que tantas vezes é tão difícil.

Eu não quero ter nada do que a Julia tem. No máximo, talvez metade das roupas que ela sempre ganha por motivo nenhum. O que eu quero é poder existir, ser eu, ficar em paz e, um dia, conseguir parar de absorver a culpa de toda a bosta que acontece nessa casa. Porque não é possível que uma pessoa tão quieta como eu possa ser capaz de causar tanto transtorno na vida de vocês.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O vinte de setembro. #1

Acho que todo ano é a mesma coisa, mas em alguns anos foi muito difícil. O ano em que briguei com as rosas foi muito difícil, porque nenhuma delas se dispôs a me parabenizar. Por nada. Nem pela minha coragem de seguir em frente - ou pela covardia de abandonar o barco naufragante-. E foi o ano que eu me senti sozinha, verdadeiramente sozinha naquela Universidade. Os corredores vazios, cheios de gente vazia, dizendo palavras vazias. Foi o ano que eu me senti mais vazia, mais sozinha.

Eu me sinto muito sozinha. Sempre precisei de um pouco de atenção. Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto. Acho que não tem trecho de música que fale mais de mim do que esse. Eu queria, no fundo, superar tudo isso. Encher o peito e dizer que passou, como eu já disse tantas vezes da boca pra fora. Fico me perguntando se foi isso que me deixou assim, essa pessoa escrota, que não se esforça muito pra "manter amizades". E tem uma parte de mim que diz que essas coisas deveriam acontecer sozinhas, espontaneamente.

Bom, teve o outro ano, o ano do joelho podre, da fisioterapia. O ano de andar mancando, o ano das muletas, o ano dos trinta dias imobilizados que me renderam atrofias musculares e uma perna levemente maior que a outra. O ano em que eu percebi que, às vezes, pessoas que nem te conhecem podem te trazer muito mais alegria que gente que te conhece há anos. O ano em que eu chorei, chorei porque não queria estar naquele lugar, e também chorei porque às vezes eu me acho muito insuportável, e eu chorei porque meus fisioterapeutas tinham deixado seus pacientes de lado for a while e foram cantar meus parabéns ali, comigo, numa salinha do consultório. Eu chorei com as palavras que eu ouvi da Dra. Mylza, sobre estrelas, cometas e algumas coisas que minha memória escrota não consegue lembrar. Mas eu chorei porque foi lindo, porque aquilo atravessou meu coração feito flecha. E não consegui conter as lágrimas ao escrever esse maldito parágrafo.

Teve o ano em que meu namorado estava longe, tinha acabado de ir pra longe. O ano em que eu quis ficar mais sozinha do que nunca, o ano em que eu só queria desaparecer, dormir e acordar logo com 21 anos. Eu chorei quando fiz 20 anos, esse tapa na cara que é a vida adulta. E eu estava completando meus 21 anos sem a pessoa que mais se anima com essas datas: o meu namorado. Eu não queria fazer nada, mas ele conseguiu organizar a droga de uma festa surpresa com as pessoas que eu mais gostava naquele momento, e ele gravou a droga de um vídeo que me fez chorar feito criança, e me fez abraçar a tela do computador na esperança de sentir qualquer coisa, e eu só senti mais e mais vontade de chorar, e aí eu me afastei e me despedi daquela imagem, porque eu nunca gostei de chorar na frente de ninguém. Mas depois eu chorei, porque tudo o que eu queria estava dentro do computador, ou melhor, tava lá na puta que pariu. E demorou muito pra eu chegar lá.

Eu simplesmente queria que as pessoas que não gostam de mim desaparecessem da minha vida. Ou eu simplesmente queria desaparecer, e acho que essa é a grande verdade sobre mim. Eu queria desaparecer. Eu queria ser invisível a maior parte do tempo, especialmente no dia do meu aniversário. Sabe o que é? Eu nunca gostei de incomodar ninguém, e eu acho horrível que eu esteja no meio de um clima tenso entre alguns dos meus amigos. Eu acho que isso deveria ficar entre mim e a pessoa, e que ninguém mais deveria se meter, e que ninguém também deveria ser afetado. Que a gente se tratasse como desconhecidos, ou melhor, que nem se tratasse. E tem a outra lá, também, que é duro concordar, mas desde que chegou, as coisas começaram a dar errado ali dentro. Eu não consigo ser falsa, e a verdadeira Juliana é muito rabugenta e grosseira. Mas eu não quero ser assim com ninguém, mas é porque, pra piorar, ainda cái no meu dia. E mais uma vez eu tô no meio de uma situação ridícula de disputa, e mais uma vez é como se eu me visse obrigada a lutar por coisas/pessoas que, porra, eu já tinha certeza. Mas agora tudo é incerto. Esse é o ano da incerteza. É o ano em que eu REALMENTE queria desaparecer, porque aí eu não incomodava ninguém, de jeito nenhum, nem em pensamento. As pessoas nem precisariam se sentir obrigadas a escrever nada pra mim no facebook, nem no whatsapp, nem em porra de lugar nenhum. O que eu sinto é a mesma vontade de ficar dormindo, acompanhada da incerteza da vida, das coisas e das pessoas, e da vontade de marcar logo um psicólogo, pra ver se eu tô ficando mesmo doida, ou se tá ficando cada vez mais difícil de viver nesse mundo estúpido. Vou fazer isso amanhã.

Faz pouco tempo que eu descobri que mães também erram, e pouco tempo que descobri que a minha não admite estar errada em nenhum momento. E fico pensando que minha mãe é assim comigo, imaginem só como é fácil pras outras pessoas serem assim. Eu acho que só tô meio cansada dessas dúvidas, dessas incertezas e desse coração pesado que eu carrego há tanto tempo.

E que eu queria mergulhar num mar de água bem gelada, uma água que eu pudesse abrir os olhos e enxergar tudo e depois não precisar enxergar mais nada, e que eu pudesse inspirar e expirar essa água até que ela tirasse tudo de podre que tem em mim. E eu queria ficar imersa ali até que eu perdesse os sentidos e o dia do meu aniversário, e que quando eu voltasse, toda essa droga de fase tivesse acabado, e tudo que me faz mal tivesse morrido afogado.

sábado, 20 de julho de 2013

Sobre o dia do amigo.

Eu resolvi fazer essa postagem aqui, nesse blog que ninguém lê, pra ninguém ficar sentido, com ciúme, ou qualquer coisa do tipo.

Eu resolvi escrever aqui, porque o dia do amigo pra mim sempre foi muito importante. Eu sempre achei o máximo receber cartinhas, mensagens de texto, recadinhos no finado Orkut e tudo o mais. Mas não sei se por estar ficando velha e rabugenta, ou pela realidade estar me puxando cada vez mais para perto dela, eu não consigo mais sentir muita coisa nesse vinte de julho.

Talvez nem tanto pela rabugentice, mas provavelmente muito pelas decepções com "amigos" que tive. Pelas quatro flores que deixaram a Margarida apodrecer sozinha, e pela flor traiçoeira que me arrancou do solo pela raiz. E pelas outras flores, que sabiam da minha apodrescência e me deixaram definhar. Viraram as costas.

E talvez também pelas amizades infantis, que são incapazes de enxergar o mundo além do seu próprio umbigo, que são incapazes de sair de trás do muro do orgulho para entender os sentimentos do outro; as amizades infantis, que não aguentam ouvir verdades, que só se importam em ter a última palavra, Beijo :*
As amizades infantis, que são as mesmas voláteis e vazias, mas que ao mesmo tempo exigem a intensidade e a profundidade da sua parte, a frivolidade de uma amizade adolescente, de fotos em espelhos de banheiro. As amizades infantis, que exigem que a gente as aceite como são, mas são incapazes de conviver com as diferenças.

E, por último, as amizades intensas, que são intensas na hora de chegar e partir. Os amigos que entram na sua vida como um arremesso a ultravelocidade do destino, como uma bomba a explodir dentro de ti e te encher de sentimentos que você nunca sentiu... E vão embora de mansinho, enquanto você dorme, ou vão embora sem deixar rastros, ou vão embora com raiva de você por um motivo que você nunca vai saber (ou entender) o por quê, ou... simplesmente vão embora. E nunca mais voltam.

Eu nunca fui muito paciente, sempre tive o pavio curtíssimo... E tenho meus defeitos, meus um milhão de defeitos que uma mulher-virginiana-com-ascendente-em-touro tem, mas preciso dizer que, com os meus amigos, eu consigo ser essa pessoa, sabe? Eu consigo ser amável, atenciosa e tudo o mais. Nem sempre consigo, mas sempre tento. E quando eu falo -meus amigos-, você, leitor, nem precisa se dar ao trabalho de imaginar quantos eu devo ter, porque eu consigo contá-los nos dedos das mãos. E isso é maravilhoso! Nunca consegui entender como aquelas pessoas super populares conseguiam administrar tantos amigos.

O que eu mais amo nos meus amigos é o fato de todos eles terem a mesma essência, a mesma concepção de amizade que a minha (e talvez seja isso que nos mantenha sempre juntos, como uma espécie de elástico invisível, um ímã, um campo magnético de atração): os amigos de verdade simplesmente são amigos de verdade. Eles te conhecem o suficiente para sempre estarem ali, e você os conhece o suficiente pra saber que eles sempre vão estar ali. E não importa a distância física ou sentimental, não importa quanto tempo vocês estão sem se falar, e também não importam se vocês se falam com regularidade ou não; os amigos de verdade querem seu bem, independentemente da situação em que você está. Eles não se importam se você trocou de cidade, ou de bairro, ou de escola, ou se você conheceu novas pessoas, ou se você começou a namorar: o amigo de verdade vai estar sempre ansioso para saber, de você, tudo o que você quiser contar. E ele vai respeitar se você não quiser contar nada. Ele também vai respeitar sua TPM, seus dias difíceis, seu choro, sua vontade de fugir de tudo. E a única coisa que ele espera de você é a reciprocidade. Porque os amigos de verdade resistem ao tempo, às mudanças, às brigas e à distância. Os amigos de verdade são amigos de verdade por natureza, e eles identificam uns aos outros. E talvez seja isso que faça deles -dos meus amigos de verdade- tão especiais e importantes pra mim: a identificação, a segurança, a certeza, a lealdade.

Eu amo muito, muito, muito vocês. ♥

domingo, 24 de fevereiro de 2013

eu confesso.

que às vezes acho que a gente tem que ficar junto pra sempre.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

estabilidade

ter um rumo nessa vida. saber exatamente pra onde ir. ou não saber, mas pelo menos sentir que está indo na direção certa. ter uma perspectiva de vida. se encontrar. uma pessoa que me aguente com ou sem tpm, que fique do meu lado, que me faça ter certeza de que eu não tô sozinha. que tome partido, que mergulhe comigo nas minhas ideias e ideais. que segure minha mão e me dê a certeza de que não vai mais soltar. uma pessoa que me ajude a organizar a minha vida, que entenda que eu odeio responder e-mails, que eu tenho a sensação de que nunca estou no lugar certo, mas que me faça sentir que, pela primeira vez na vida, eu estou enraizada em algum lugar fixo e seguro. eu nunca tive essa certeza. uma pessoa que entenda essa eterna sensação de insegurança, uma pessoa que me dê segurança. uma pessoa que entenda que não é sempre que eu quero amor: às vezes, eu só quero o companheirismo. alguém que tome a iniciativa por mim. alguém que dê as ideias. alguém que faça os planos. alguém que fique ansioso pela minha chegada. alguém que reconheça o meu esforço, alguém que consiga colocar na minha cabeça todas as coisas boas que eu não acredito. alguém que me faça voltar a acreditar nas coisas boas que, um dia, eu já acreditei. alguém que não me repreenda quando eu estiver chorando por bobagem. alguém que não tente levantar o meu astral quando eu estiver sofrendo. alguém que fique do meu lado, em silêncio, mas que saiba a hora de falar. alguém que ature o meu perfeccionismo, o meu metodismo, a minha mania de organização, o meu virginianismo.

alguém que saiba exatamente o que fazer.
alguém que leia esse post (será que alguém ainda lê esse blog?) e não fique triste, mas preocupado.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

inverno

as suas lembranças são a última folha seca que eu não quero deixar cair.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

no alto.

pra mim, sempre foi assim: quanto mais alto, maior o medo.
eu nunca usei salto alto. nunca me equilibrei por muito tempo em cima de pedras na rua. nunca saltei de um trampolim. os brinquedos mais altos sempre me deram medo.

não tinha como ser diferente no amor.
ah, o amor.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

boa noite

agora é hora de sair procurando, em cada canto desse corpo tão cansado, todas as gotas de lágrimas que ficaram perdidas procurando a porta de saída.

que abram os portões.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

pequenas percepções sobre a vida - 02

ir embora quando sentir que tem-se de ir
é abrir mão do que ficará para trás.

só fica pra trás quem quer.
quem não quer, dá um jeito de te acompanhar.