quarta-feira, 17 de novembro de 2010

a Margarida.

A Margarida cuidou de quatro flores durante os dois anos que viveram no mesmo jardim, que foi o tempo que levou pra ela perceber quem era quem nas estações. Acabou descobrindo que todas eram diferentes de si, mas insistiu em acreditar que existia algo em comum que as mantinham juntas.

O que a Margarida não sabia é que é quando a chuva vem antes do tempo que você conhece cada flor.

E foi assim, depois de dois invernos sucessivos, que a Margarida percebeu que não era ela quem cuidava do jardim, porque ninguém morreu quando ela foi embora. E também que as outras flores não tinham nada em comum com ela, mas muito entre si. Mas o mais doloroso foi perceber que não, elas não viveram juntas no mesmo jardim.

Porque quando a Margarida parou de florescer porque uma das flores a feriu com um espinho, nenhuma das outras flores se preocupou com a ferida da Margarida, e sim com a mudança de comportamento da flor assassina, a flor traiçoeira. Porque a Margarida era forte e se cuidaria sozinha. Mas flor que é não é regada, perde a cor.

E foi quando perdeu a cor que a Margarida viu que as outras flores não tinham cor: eram ausência dela, porque eram incapazes de absorver as outras cores do mundo, porque suas próprias cores lhes bastavam. E era isso que a diferenciava, porque a Margarida é branca da mistura de tantas outras flores que existem no mundo, de tantos outros mundos que existem em um sonho, de tantos sonhos quantos caibam em um balão, de tantos balões quantos caibam no céu.

Antes que pudesse murchar e se tornar alimento para a indiferença das flores que já não mais a viam, foi levada no coração dos passarinhos...

(O teu amor passarinho
fez ninho no meu coração
e depois, voou.)

... flor que é flor é flor em qualquer estação.






esse texto é dedicado pras flores que conseguem ver a Margarida nos seus jardins, e pros passarinhos que levam a Margarida no coração.